
Olho as horas, apressadamente, na cabeceira: é cedo demais. Noite passada parecia que não ia acabar nunca! Tantos drinks, tantas horas... Agora, cedo, ainda não entendo a minha pressa. Não tenho motivo pra pressa. Mas estou ansioso.
Olho pra você e vejo o mesmo rosto que vi outro dia. No mesmo travesseiro. No meu travesseiro. Tento lembrar quando isso aconteceu outra vez... Faz tempo. Engraçado, foi gostoso. Adorava aquelas noites. Eu e meu grande amigo fazíamos nosso percurso tradicional. Quando faltávamos, éramos cobrados por José Linhares, por Rainha Guilhermina, por Dias Ferreira. Durante anos, foram noites e noites, um chope após o outro, uma após a outra... trocando as pernas, trocávamos de pernas. Tínhamos um sorriso razoável, um bom papo e uma enorme auto-confiança. Tínhamos sorte. E nenhum motivo pra mudar de vida...
Sinto, até, saudade. Foram bons, ótimos dias. Até hoje, rendem piadas, lembranças – nossas e de outros -, e muitas histórias, contadas nas mesmas mesas de bar, na maior parte das vezes, exageradas – nunca me esqueci daquela final da Liga Mundial!
Olho as horas, agora já sem pressa. Não tenho pressa. Já não quero o mesmo que queria ontem. Tenho o hoje. Te tenho hoje. Te quero hoje. Amassada no meu travesseiro, nem desconfia que, tão cedo, consigo ir tão longe. Penso alto. Você escuta, quase acorda. Mal abre os olhos, inchados e borrados, murmura palavras que não entendo. Mas sei que você quer que eu deixe os pensamentos de lado. Quer que eu volte pro seu lado. E sonhe com você. Eu também quero.
E esqueço as horas...







