
Plínio sempre foi o melhor. Desde o colégio, nunca foi o mais bonito. Nunca ninguém fez mais sucesso do que ele. O melhor no futebol. No pingue-pongue. No vôlei, não tinha pra ninguém! Entrou pra universidade e imediatamente se destacou. Trazia consigo, uma aura vencedora. Já no trote, os veteranos tentavam desmoralizá-lo, meio que antevendo um grande concorrente. Sempre se davam mal. Das calouras às veteranas, todas se preocupavam com ele. E ele, óbvio, adorava.
Chegou ao mercado de trabalho. Não poderia ser diferente. Rapidamente, ascendeu na empresa e, em menos de 4 anos, estava prestes a ser promovido a diretor. Era um fenômeno, também, profissionalmente. Era casado, 31 anos, uma filhinha linda de quase dois anos, tinha tudo. E todas!
Não era segredo que a empresa inteira o invejava. As mulheres o desejavam. E provocavam. E ele, óbvio, adorava. Saiu algumas vezes com a Marcinha, uma ruiva fogosa e espetacular. Pegou, também, aquela moreninha baixinha, das coxas de bailarina. Delícia! Todas que ele quis, ele conseguiu. A Rafa, a Lúcia, a Clau... As melhores, as médias e, eventualmente, algumas nem tão boas assim: realmente, ele era um profissional!
Não era segredo que ele era insaciável. Depois de cada conquista, surgiam as novas apostas: quem será a próxima?! ‘Acho que vai ser aquela magrinha da supervisão.’ ‘Sei não, eu o vi puxando um papo com a assistente do Juarez...’ ‘Vocês não têm noção de como a Flavia ta em cima dele... – disse o Aluísio, que trabalha na sala ao lado da de Plínio – hoje, até biscoitinhos ela levou pra ele, na hora do café. Eu vi tudo!’ E ele, óbvio, adorava.
O problema é que todo mundo sabia. Inclusive a mulher dele. Por muitos anos, ela o esperou em casa, com os olhos cheios de carinho e as mãos cheias de perdão. Um dia, entretanto, até o perdão cansou-se de perdoar. Quando chegou em casa, encontrou duas malas e um recado: ‘Troquei a fechadura. Hoje, você não entra!’ Ele entendeu o recado. E ele, óbvio, não adorou. Ligou pra Lúcia e passou a noite com ela, esfuziante – ela.
No dia seguinte, flores, chocolates, bichinhos de pelúcia, o CD do Vinicius (não poderia ser de ninguém mais). Ela recebeu tudo e fechou a porta. Com ele do lado de fora. Ele compreendeu. E por dias, tentou. Ela o amava. E sabia que o aceitaria de volta. E também sabia que ele voltaria a abusar da regra três... Ele estava realmente disposto a mudar. Queria ser só dela! Estava cansado da poligamia. Enquanto não voltava pra casa, passava algumas noites com a Lúcia, outras com a Clau. As últimas, com o único amigo fiel, o Thiago.
Pra seu azar, assim que a sua mulher o aceitou de volta e tudo caminhava pruma direção que o relacionamento nunca tivera, a monogamia – pelo menos do lado dele -, a vice-presidente financeira, o tesão da Alice, terminou um casamento que, todos sabiam, era uma porcaria. Há anos, o marido dela já não tinha a menor paciência pra ela, brigavam freqüentemente, ele já não comparecia com freqüência – inclusive às festas e celebrações da companhia. Ela estava carente. E ela achava que o Plínio poderia resolver sua... carência. O Plínio, como bom investidor, já havia feito suas sondagens, ainda sem sucesso.
Agora, ela vinha com tudo pra cima dele. Logo agora! Inebriado pelo desejo, com a consciência pesada (pela primeira vez na vida!), ele evitava até o limite das forças. Volta-e-meia, ela ligava, sedutora e o deixava duro na cadeira. Vez por outra, o chamava à sua sala, com os mais picantes decotes – e fazia questão de deixá-los o mais à mostra que fosse possível dentro daqueles
tailleurs que a deixavam ainda mais fabulosa. Ela era foda! E ele, é óbvio, adorava. Mas, aos trancos e barrancos, naquele momento, se segurava. Como podia. No sexo, eventualmente, fechava os olhos e, por alguns instantes, era a chefe que estava ali...
O assédio aumentou. A repercussão também. Todo mundo acompanhava seus movimentos, sabendo que, alguma hora, ele não agüentaria. Só queriam saber quando seria. Estava cada vez mais perto, disso, todos sabiam. Inclusive ele. Heroicamente, entretanto, ele conseguiu resistir até o fim. Até o seu fim.
Os rumores começavam a afetar a imagem dele. Da Alice, também. Tomada pelo desejo, pelo recalque e pelo desespero, o chamou para uma última cartada: mandou um e-mail o convocando para uma reunião, depois do expediente, num barzinho próximo ao trabalho. Ele sabia que o encontro seria mortal. Mais complicado, inclusive, com sua primeira morte, quando disse ‘SIM’ no altar, quatro anos antes. Ali, ainda não tinha noção do que o esperava.
Resignado, foi ao encontro. E ela, mais ainda, foi com tudo pra cima. Não agüentava tanta resistência. O provocava com palavras, olhares, carinhos. Ele estava quase entregue. Quando ela jogou-se contra seu pescoço, apertou seu peitoral, ele pulou do banco e falou: ‘Não posso, sou viado!’ Incrédula, ela ainda o ouviu, sem entender nada: ‘Quer dizer, ESTOU viado!’
No dia seguinte, perdeu seu emprego. A alegação da diretoria– e patrocinada por Alice – era que não poderiam promover um homem que expunha tanto diante de toda a empresa, sua vida particular. Realmente, naquelas semanas, seu rendimento e concentração haviam caído vertiginosamente. Quando a mulher o viu chegar em casa, com uma bolsa cheia de seus pertences pessoais do trabalho, não conseguiu aceitar que ele fora demitido por NÃO comer a gostosa da Alice – até ela, anos depois me confessaria, já a havia desejado, mas não encontrou meios de convidar Plínio para o ménage. O problema foi que, além de não aceitar mais uma mentira dele, foi o estopim para o fim do casamento.
Resumo da história: seja dono do seu negócio, porque chefe é uma merda! Mesmo quando você faz a coisa certa, sempre arruma um jeito de te fuder! Vá com Deus, Plínio... Já, já, você arruma outra.