terça-feira, 29 de setembro de 2009

Olho as horas...


Olho as horas, apressadamente, na cabeceira: é cedo demais. Noite passada parecia que não ia acabar nunca! Tantos drinks, tantas horas... Agora, cedo, ainda não entendo a minha pressa. Não tenho motivo pra pressa. Mas estou ansioso.

Olho pra você e vejo o mesmo rosto que vi outro dia. No mesmo travesseiro. No meu travesseiro. Tento lembrar quando isso aconteceu outra vez... Faz tempo. Engraçado, foi gostoso. Adorava aquelas noites. Eu e meu grande amigo fazíamos nosso percurso tradicional. Quando faltávamos, éramos cobrados por José Linhares, por Rainha Guilhermina, por Dias Ferreira. Durante anos, foram noites e noites, um chope após o outro, uma após a outra... trocando as pernas, trocávamos de pernas. Tínhamos um sorriso razoável, um bom papo e uma enorme auto-confiança. Tínhamos sorte. E nenhum motivo pra mudar de vida...

Sinto, até, saudade. Foram bons, ótimos dias. Até hoje, rendem piadas, lembranças – nossas e de outros -, e muitas histórias, contadas nas mesmas mesas de bar, na maior parte das vezes, exageradas – nunca me esqueci daquela final da Liga Mundial!

Olho as horas, agora já sem pressa. Não tenho pressa. Já não quero o mesmo que queria ontem. Tenho o hoje. Te tenho hoje. Te quero hoje. Amassada no meu travesseiro, nem desconfia que, tão cedo, consigo ir tão longe. Penso alto. Você escuta, quase acorda. Mal abre os olhos, inchados e borrados, murmura palavras que não entendo. Mas sei que você quer que eu deixe os pensamentos de lado. Quer que eu volte pro seu lado. E sonhe com você. Eu também quero.

E esqueço as horas...

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Nós




Nós
Amarrados, atados
Precisam ser fortes e resistentes
Justos e apertados
Pra unir coisas impensadas

Inexoráveis, nós
Um dia, foram finas fibras
De algodão,
Suave e leve
Frágil a qualquer brisa
Impensáveis, nós.

Unindo forças
Forças que tendem a desgarrar-se
Unem-se pelo imponderável
Por nós.

Não há, todavia, nós
Não nós que prendam forças que não se desejam
Nós que unam forças que se repelem
Forças que não se querem
Nós.

Eu preciso de mais
Demais
De nós.
Não dos que aprisionam.
Preciso de laços
Quero os que envolvem
Laços que abraçam

Não há sentido em nós.
Não há nós.
Não somos nós.

Somos sós
Eu
Preferia que não houvesse - você.

E que nunca houvesse nós.

No frio, quente





Estava frio, eu
e o sorriso, seu,
poesia
e a voz, sua,
magia
a boca, minha,
calaram
gritou
o coração, meu,
Calafrio.

Frio
Não o peito, meu,
não a boca, sua,
não o corpo, nosso,
que sua,
quente,
que sente,
sempre,
com você,
Calafrio.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O que eu não quero

"Palavras são erros
E os erros são seus...

Não quero lembrar
Que eu erro também"

Eu sei - Renato Russo



Tenho um texto que não quero escrever
Tenho palavras que não quero pensar
Tenho uma dor que não quero sentir
Tenho um amor que eu não quero perder.


Você.

sábado, 25 de julho de 2009

Inesquecível



Sem dúvidas, o Brasil e o mundo tiveram melhores. Pra mim, que passei a infância sem saber se queria ser craque na linha ou no gol (não consegui ser em nenhum dos dois), ele foi inesquecível. Sempre adorei o ímpeto, a energia e até o jeito meio atabalhoado que ele carregava no campo. Já fiquei muito bravo com poucas (minha memória, emocionada, tenta negar que tenham sido mais) falhas que ele possa ter cometido no gol do meu Flamengo.

Guardo, somente, as melhores. E os gritos de Zé Caaaaaarlos que eu ouvia do Galvão Bueno, fanático, a cada vôo impossível daquele goleiro de borracha. Foi o meu inesquecível Flamengo de 87 (embora eu fosse um fedelho, guardo as memórias gravadas e as imaginadas dos meus 6 anos de idade).

Um time histórico. Meu preferido. Que tinha, não o melhor, o mais querido goleiro que eu vi jogar. O Zé Caaaaaarlos.

Inesquecível.

Pra sempre.

* 07/02/62
+ 24/07/09

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Pra que servem os signos?!


Nunca fui supersticioso. Nunca fui Botafogo. Por isso, talvez, nunca acreditei em signos. Aliás, como bom virginiano que sou, não poderia acreditar numa coisa tão pouco lógica. ‘Quer chocolate ou biscoito?!’ ‘Humm... eu sou aquariana, logo, vou escolher o chocolate!’ ‘E aí, Tunico, bora pra praia?’ ‘Olha, se eu não fosse geminiano, até iria...’

Sei que as pessoas hão de discordar. Dirão que não é bem assim e que estou exagerando. Estou. Realmente, estou. E elas, não estão? Vocês vão concordar comigo...

Nada me irrita mais do que, ser interrompido numa conversa interessante - sobre qualquer coisa que seja - por alguma pergunta ou conclusão brilhante como, por exemplo, ‘você é de libra, não é?!’ Matematicamente, ela tem uma chance em doze. É considerável a probabilidade de errar, inclusive! Ela tem uma outra chance: a sua lua. Ainda mais se você não souber responder. Ela pode dizer: ‘Como assim?! Você nunca fez o seu mapa astral?! Você precisa saber a sua lua!’ Cacete, por que eu preciso saber a minha lua? Não sei e vivi bem até hoje, obrigado...

Sei quem eu sou. Sei do que eu gosto. Sei onde moro e sei que, mesmo bêbado, o meu tem dono! Não preciso saber qual é a minha lua. Nunca precisei. Aliás, eu só preciso saber do que eu quero saber. E qual é a minha lua, de fato, pouco me importa.

O curioso é que, por outro lado, as pessoas te acham um criminoso quando você, apoiado em idéias lógicas, diz que pouco se importa com signos. Algumas tentam te convencer da importância e não vêem quão ridículas podem ser: ‘a influência dos signos está em tudo: na Natureza, na sua alimentação, no seu humor, no seu rendimento profissional, na sua inspiração...’ Quando eu vejo que é papo perdido, até sorrio e finjo que concordo. Nada me irrita mais do que discussões irritantes com argumentos insuportáveis sobre estúpidos.

Um dia, entretanto, tudo isso mudou. Estava num bar, de madrugada, no fim de noite. Surgiu uma deusa pela portinhola que, naquele momento, foi elevada a portal. Pra minha sorte, ela conhecia o Augusto, que estava sentado comigo. Pra minha sorte, o Augusto sempre tentou – e nunca conseguiu – pegar a amiga da Vanessa. Nem conseguiria aquela noite. Tava na cara, aliás, que isso nunca aconteceria... Como ele pagava uns drinques pra ela, ela sempre gastava uma meia horinha com ele. Só pra garantir os próximos.

Sei que o papo começou superficial. Eu fiquei meio quieto, conversando com a mesa ao lado. Já tinha sido apresentado à Vanessa e não conseguia parar de pensar em como fazer com aquela mulher. Sabia que tinha que ser rápido porque a ampulheta do Augusto já tinha virado! Fingia que mal havia reparado nela. Quando passei a conversar com o pessoal da mesa - depois dos breves esclarecimentos de ‘a Vanessa é estagiária da Luca. Conheço (ou seja, quero comer) a Luca desde o colégio... Elas trabalham num escritório de design' - vieram papos sobre cinema, música, moda, trabalho... Eu estava empolgado, falando sobre qualquer coisa quando a Vanessa me interrompeu e lançou a clássica, nesse caso, surpreendente:

-Você é Leão, né?

Ao que respondi, de bate-pronto, com um trocadilho de péssimo tom: ‘Já começaram a fazer a minha propaganda, é?!’

- Não, bobo, o signo! Você é leão, né? Claro que não. Não sabia qual era a minha lua, mas nasci em setembro. Sei que sou virginiano. E ponto. Já é muito! Aliás, nem sabia em que mês teria que ter nascido pra ser leão. Mas, achei de bom tom dizer que sim, que era de Leão. Ela poderia ficar desapontada, afinal de contas... Confirmei. Ela se empolgou:

- Você é de julho ou agosto?

Ufa, pensei, pelo menos agora eu já sei os meses! ‘Sou de agosto.’ ‘Caramba, sabia que você era de Leão! Personalidade forte, imponente, conquistadora...’ Eu poderia esperar aquilo de qualquer mulher que eu já tinha conhecido. Jamais daquela. Mas adorei. Claramente, ela estava dando em cima de mim. Essas foram as primeiras deixas. Mais tarde, eu, um leão, peguei aquela taurina deliciosa. E rugi! Ela, urrou. Urrou e bufou. A noite toda. Realmente, eu fui um leão...

Dali em diante, o passo seguinte foi saber que signo significava o quê. Os elementos - terra, fogo, água e ar - vieram a seguir. Volta-e-meia, quando a bola quicava, eu soltava alguma – sempre com alvo certo: ‘Você é sagitariana, né?’ ‘Como você sabe?!’ ‘Não sei, acho que é porque você tem uma energia, um calor no gestual, quando fala, como movimenta o corpo...’ Quando eu já sabia o signo, adequava o meu à ocasião. Passei a ser um cara de aniversários itinerantes: a cada noite, poderia ter um novo signo. Ontem, era de áries. Anteontem, escorpião. Tem noite em que troco de signo mais de uma vez. Na maioria delas, troco de par, também.

O importante é que nunca imaginei como os signos poderiam ser importantes na vida de um homem como eu. Me enganei! Eram fundamentais. Hoje, digo, imprescindíveis! Se existem duas coisas que nunca mais podem me faltar à mesa são: um chopinho gelado e... astrologia. Nunca!

Ah, como eu gosto de ser virginiano... E como!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

terça-feira, 30 de junho de 2009

999 amigos!




Pessoal,

Entrei no blog para fazer alguns ajustes e preparar um novo texto e levei um susto com o número de visitantes que vieram aqui: 999. Além de ser o inverso do número da Besta, 666, me trouxe uma enorme alegria por, em tão pouco tempo - o primeiro texto é do dia 25/05 -, ter conseguido a companhia de tanta gente.

Em nome do George Best, do Jack Nicholson, do Plínio, do Onofre, do Francisco Gump e de todos que ainda contribuirão com suas histórias, mais ou menos risíveis, neste espaço, queria agradecer a todos que leram, comentaram, virtual ou pessoalmente, pelo carinho que tiveram com comigo e com o blog, que é uma grande brincadeira. Prometo empenho e esmero para os próximos textos serem melhores e mais divertidos do que os já publicados!

Se eu fosse Roberto Carlos, agora, só faltariam 999 mil amigos...

Um beijo, orgulhoso,
Victor Gomide e grande elenco.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quem bebe o que quer, ouve o que não quer!


Ele adorava contar histórias. Na verdade, não havia, no bairro, ninguém melhor do que ele. Algumas, sabíamos que eram verdade – eu, mesmo, testemunhei algumas, que ele contava, aí sim, com uns pontos a mais, mas vale o desconto... Quando ele chegava, juntava um monte porque era certeza de que iriam começar ‘As fábulas de Francisco’. De tão famoso pelas suas narrativas, fizemos um trocadilho com o seu sobrenome: de Gomes, passou a Gump. Com razão!

Ele era inigualável contando suas aventuras. Qualquer coisa que ele contasse parecia fantástica, arrancava risos freqüentes e, quando acabavam os aplausos, todo mundo pedia bis. O Francisco era fantástico. Mas tinha o ‘mais doce’ problema... A branquinha. Conforme a noite corria, multiplicavam-se os copos daquela cachaça mineira que o Seu Olavo, dono do nosso boteco, já deixava na mesa pra ele. E, invariavelmente, o baixinho Francisco saía alto. Beeeem alto do boteco. Como numa vez em que ele passou pela história que virou a lenda preferida de todo mundo – eu acredito que seja verdade!

Ele trabalhava com eventos. Vinha de quase duas semanas em que só parava de trabalhar para dormir (pouco) e comer. Em algumas noites, só cochilou. Numa sala que tinha um sofá lá no trabalho dele mesmo. Na quinta-feira em que o tal evento acabou, ele, já saudoso da boemia, partiu com tudo pro barzinho perto do escritório e, antes mesmo de se sentar à mesa, já tinha em mãos um copo e a branquinha. Foram logo algumas doses para ‘esquentar’ e ele já estava ficando à vontade. Foi quando percebeu, apoiada ao balcão, uma linda loura, de roupa curta e que não dava a menor atenção para todos os outros homens ao redor. Francisco se notou observado. Mais do que observado, sentiu-se caçado. Haveria de ser a sua noite de sorte!

Francisco sempre foi daqueles ‘corajosos’: “comigo, não tem tempo ruim”, cansava de dizer. Mas, nesse caso, coragem não seria necessária: a mulher era impressionante. E ninguém tirava os olhos dela. Ela impressionava mesmo. Era alta, tinha cabelos louros, pouco abaixo do ombro, largo, cintura fina, músculos firmes, pernas grossas e descobertas pela saia que só alcançava a metade da coxa. A blusinha, generosa, oferecia um belo horizonte para o mais novo crente do bar: “obrigado, Jesus!” – repetia Francisco.

Com um sinal sutil, a convidou para se sentar. Prontamente, aceito. Francisco se impressionava com a delicadeza e doçura com que era tratado por Joaquina. Gentil, ela o fazia elogios que Francisco chegava a pensar se faziam sentido – nunca ouvira que tinha lindos olhos (tinha um leve desvio no olho direito, que acompanhava mais o gato do que o peixe, normalmente, observado pelo esquerdo), que tinha (poucos e curtos) cabelos macios, cor de mel... Ele estava encantado. E se sabia invejado.

Logo, notou que, embora Joaquina já lhe fizesse companhia há mais de uma hora, os olhares dos outros homens continuavam a persegui-la. Não entendia por que razão aqueles ‘invejosos’ os olhavam, entre sussurros e piadas. Sentiu-se absolutamente incomodado: “não se respeita mais mulher acompanhada?!” Realmente, a postura era, no mínimo indelicada. Foi acalmado por ela até que, por sugestão dela, resolveram pagar a conta e ir-se embora, ficar mais à vontade.

Saíram do bar e foram para um ambiente em que pudessem ficar a sós, longe do alcance da ‘inveja’ dos infortunados. Francisco se impressionou com a altura e a rigidez das costas de Joaquina, enquanto andava com a mão contornando a sua cintura. “Não vou me esquecer nunca mais dessa noite!”, pensava. E tinha razão.

Quando já estava à porta do quarto, com a chave quase encaixando a chave na fechadura, o baque: “Francisco, você foi muito generoso e agradável comigo. Sua companhia fez a minha noite ser ótima.” Ele ficou até um pouco sem jeito, também estava encantado com ela e já pensava em convidá-la para um aniversário do Alan, do trabalho, na semana seguinte – “o pessoal não vai acreditar nesse lorão que eu arrumei!”. Deu-lhe um beijo no pescoço e encaixou a chave na porta. Joaquina, firme, segurou sua mão e, num tom grave, soltou algo que parecia entalado em sua garganta: “eu quero muito entrar nesse quarto com você, mas preciso te falar uma coisa. Eu sou como você.” Francisco tentou não entender. E Joaquina foi mais específica: “Quando eu nasci, eu era Joaquim...”

Nosso bravo Francisco, homem de palavra, manteve-se focado: “pois pra mim, hoje, você é a Joaquina...”

Ele estava certo. Quando nos contou, pela primeira vez, essa aventura, justificou com rara felicidade: “Meu amigo, eu tinha pago bebida, dado beijinho no pescoço e quase caído na porrada no meio do bar, entrei no motel com o traveco... Agora, quem iria acreditar que eu não comi?! Tá no inferno, abraça o capeta!”

Pois é, Francisco, quem bebe o que quer, ouve o que não quer!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Quem brinca com a merenda, acaba com fome


Onofre adorava trocadilhos. E se achava engraçado quando fazia um. Bastava passar da meia-noite – ele era um persistente boêmio – e começavam as piadinhas sobre ‘hoje – ou ontem?! Porque já é meia-noite e três...’ Em geral, só ele ria das suas piadinhas. Em geral, os parcos sorrisos que conseguia à mesa eram amarelados. Quando derrubavam uma bandeja, ele sempre soltava, de supetão: ‘acho que caiu um lenço!’ Ficou admirado quando ouviu uma outra alternativa e, por algum tempo, aguardou ansioso até poder soltá-la: ‘Não quebrou nada, só amassou!’ E ria, altivo.

As mulheres – todas – sofriam com ele. Além de chato, era insistente. Além de insistente, achava que era irresistível. Além de se achar irresistível, achava que todas as mulheres adoravam mesmo era fazer um doce com ele. Por horas! Noites inteiras! Não tinha muita sensibilidade para perceber o óbvio: era um mala!

Tinha um bom emprego e aproveitava da herança que os pais, que o tiveram em idade já avançada, haviam lhe deixado: um bom apartamento e uma ótima poupança na Caixa. Mas não conseguia aproveitar da companhia dos amigos. Por uma razão em especial: eles não existiam. Entretanto, ele sempre agia como se fossem, todos, íntimos. Tapinhas nas costas, ‘pescotapas’ (já quase tivemos uma briga quando ele veio com um desses pra cima de mim!), piadas sobre calvície com os carecas ‘O Aurélio é que nem piscina rasa: tem água, mas dá pra ver o fundo. Hahahaha!’. Como o Aurélio iria achar isso engraçado?! Ele, não hesitava e insistia: ‘Aurélio, daqui a pouco, se precisar. você pode pegar emprestado. É só jogar o cabelo de um lado pro outro. Ninguém nem vai reparar!’ Outra risada. Outra risada só dele.

Surpreendentemente, ele arrumou uma namorada. Até bonita. Até legal. Até uma santa. Ela era muito gentil, solícita e veio em boa hora: o fez sumir, pelo menos, umas três noites por semana, do bar. Era visível a diferença que a sua ausência causava quando ele não ia. E como as pessoas repetiam todas as suas piadas, recheadas de ironia e, muitas vezes, transbordando acidez. Quando passava uma sirene (pouco importava se fosse uma ambulância ou de um carro da polícia) e um já gritava, de um lado pro outro do bar: ‘Bê, abaixa aí: é a polícia!’ Todo mundo ria. Só o Onofre que não. Graças a Deus.

Ele, realmente, era muito chato. E inconveniente. Exultante por ter arrumado alguém que sorrisse depois de quatro minutos de papo – e muitos trocadilhos depois -, estava mais orgulhoso. E achava que aquele namoro comprovava sua tese de que ele era um eficiente galanteador. Seus recados em papéis rasgados, escritos com as canetas dos garçons nunca foram mais criativos do que: ‘Se você se machucou quando caiu do céu, deu sorte: eu sou médico. E, hoje, a consulta é grátis!’ Uma vez, viajava de férias – sozinho – e descobriu que havia um congresso de advogados no mesmo hotel em que estava hospedado. Esperou horas, sentado perto do barman, com uma frase infalível na cabeça: ‘Se o seu namorado faz direito, eu faço muito melhor!’ Usou essa várias vezes. Nenhuma deu certo. Será que ele não percebeu nada de errado com a estratégia?!

Mas a hora dele chegou. Quando o Juninho, um grande amigo nosso, anunciou que se casaria com a Adriana, o Onofre não resistiu: ‘Aê, Juninho, comeu a merenda antes do recreio, foi?! Hahaha!’. Mais uma vez, riu sozinho. O Juninho, um lorde, nem olhou pro idiota. Meses depois, o Onofre apareceu triste, cabisbaixo. Quase dava pena. Quase. Daria se ele não fosse o Onofre. Minutos – e nenhum trocadilho – depois, descobrimos a razão: Júlia, a Santa, o trcou por outro.

Alguns minutos depois, o Juninho chegou. Logo, soube da notícia, entre papos ao pé do ouvido cheios de piadas impiedosas. Não se agüentou e se levantou da mesa em que estava com a já esposa Adriana, e falou bem alto: ‘E aí, Onofre, que que houve?! Comeram a tua merenda?!’ O bar inteiro riu. Menos o Onofre. Foi o último trocadilho da vida do Onofre. Pelo menos, no nosso bar. Onofre nunca mais voltou. Penduramos um quadro do Juninho. Emoldurado. E com uma merenda.