quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quem bebe o que quer, ouve o que não quer!


Ele adorava contar histórias. Na verdade, não havia, no bairro, ninguém melhor do que ele. Algumas, sabíamos que eram verdade – eu, mesmo, testemunhei algumas, que ele contava, aí sim, com uns pontos a mais, mas vale o desconto... Quando ele chegava, juntava um monte porque era certeza de que iriam começar ‘As fábulas de Francisco’. De tão famoso pelas suas narrativas, fizemos um trocadilho com o seu sobrenome: de Gomes, passou a Gump. Com razão!

Ele era inigualável contando suas aventuras. Qualquer coisa que ele contasse parecia fantástica, arrancava risos freqüentes e, quando acabavam os aplausos, todo mundo pedia bis. O Francisco era fantástico. Mas tinha o ‘mais doce’ problema... A branquinha. Conforme a noite corria, multiplicavam-se os copos daquela cachaça mineira que o Seu Olavo, dono do nosso boteco, já deixava na mesa pra ele. E, invariavelmente, o baixinho Francisco saía alto. Beeeem alto do boteco. Como numa vez em que ele passou pela história que virou a lenda preferida de todo mundo – eu acredito que seja verdade!

Ele trabalhava com eventos. Vinha de quase duas semanas em que só parava de trabalhar para dormir (pouco) e comer. Em algumas noites, só cochilou. Numa sala que tinha um sofá lá no trabalho dele mesmo. Na quinta-feira em que o tal evento acabou, ele, já saudoso da boemia, partiu com tudo pro barzinho perto do escritório e, antes mesmo de se sentar à mesa, já tinha em mãos um copo e a branquinha. Foram logo algumas doses para ‘esquentar’ e ele já estava ficando à vontade. Foi quando percebeu, apoiada ao balcão, uma linda loura, de roupa curta e que não dava a menor atenção para todos os outros homens ao redor. Francisco se notou observado. Mais do que observado, sentiu-se caçado. Haveria de ser a sua noite de sorte!

Francisco sempre foi daqueles ‘corajosos’: “comigo, não tem tempo ruim”, cansava de dizer. Mas, nesse caso, coragem não seria necessária: a mulher era impressionante. E ninguém tirava os olhos dela. Ela impressionava mesmo. Era alta, tinha cabelos louros, pouco abaixo do ombro, largo, cintura fina, músculos firmes, pernas grossas e descobertas pela saia que só alcançava a metade da coxa. A blusinha, generosa, oferecia um belo horizonte para o mais novo crente do bar: “obrigado, Jesus!” – repetia Francisco.

Com um sinal sutil, a convidou para se sentar. Prontamente, aceito. Francisco se impressionava com a delicadeza e doçura com que era tratado por Joaquina. Gentil, ela o fazia elogios que Francisco chegava a pensar se faziam sentido – nunca ouvira que tinha lindos olhos (tinha um leve desvio no olho direito, que acompanhava mais o gato do que o peixe, normalmente, observado pelo esquerdo), que tinha (poucos e curtos) cabelos macios, cor de mel... Ele estava encantado. E se sabia invejado.

Logo, notou que, embora Joaquina já lhe fizesse companhia há mais de uma hora, os olhares dos outros homens continuavam a persegui-la. Não entendia por que razão aqueles ‘invejosos’ os olhavam, entre sussurros e piadas. Sentiu-se absolutamente incomodado: “não se respeita mais mulher acompanhada?!” Realmente, a postura era, no mínimo indelicada. Foi acalmado por ela até que, por sugestão dela, resolveram pagar a conta e ir-se embora, ficar mais à vontade.

Saíram do bar e foram para um ambiente em que pudessem ficar a sós, longe do alcance da ‘inveja’ dos infortunados. Francisco se impressionou com a altura e a rigidez das costas de Joaquina, enquanto andava com a mão contornando a sua cintura. “Não vou me esquecer nunca mais dessa noite!”, pensava. E tinha razão.

Quando já estava à porta do quarto, com a chave quase encaixando a chave na fechadura, o baque: “Francisco, você foi muito generoso e agradável comigo. Sua companhia fez a minha noite ser ótima.” Ele ficou até um pouco sem jeito, também estava encantado com ela e já pensava em convidá-la para um aniversário do Alan, do trabalho, na semana seguinte – “o pessoal não vai acreditar nesse lorão que eu arrumei!”. Deu-lhe um beijo no pescoço e encaixou a chave na porta. Joaquina, firme, segurou sua mão e, num tom grave, soltou algo que parecia entalado em sua garganta: “eu quero muito entrar nesse quarto com você, mas preciso te falar uma coisa. Eu sou como você.” Francisco tentou não entender. E Joaquina foi mais específica: “Quando eu nasci, eu era Joaquim...”

Nosso bravo Francisco, homem de palavra, manteve-se focado: “pois pra mim, hoje, você é a Joaquina...”

Ele estava certo. Quando nos contou, pela primeira vez, essa aventura, justificou com rara felicidade: “Meu amigo, eu tinha pago bebida, dado beijinho no pescoço e quase caído na porrada no meio do bar, entrei no motel com o traveco... Agora, quem iria acreditar que eu não comi?! Tá no inferno, abraça o capeta!”

Pois é, Francisco, quem bebe o que quer, ouve o que não quer!

Um comentário:

  1. gente, sensacional.
    O Victor Rios, meu primo, que me apresentou esse blog.
    Estou acompanhando sempre que posso. Adorei a criatividade.

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