segunda-feira, 22 de junho de 2009

Quem brinca com a merenda, acaba com fome


Onofre adorava trocadilhos. E se achava engraçado quando fazia um. Bastava passar da meia-noite – ele era um persistente boêmio – e começavam as piadinhas sobre ‘hoje – ou ontem?! Porque já é meia-noite e três...’ Em geral, só ele ria das suas piadinhas. Em geral, os parcos sorrisos que conseguia à mesa eram amarelados. Quando derrubavam uma bandeja, ele sempre soltava, de supetão: ‘acho que caiu um lenço!’ Ficou admirado quando ouviu uma outra alternativa e, por algum tempo, aguardou ansioso até poder soltá-la: ‘Não quebrou nada, só amassou!’ E ria, altivo.

As mulheres – todas – sofriam com ele. Além de chato, era insistente. Além de insistente, achava que era irresistível. Além de se achar irresistível, achava que todas as mulheres adoravam mesmo era fazer um doce com ele. Por horas! Noites inteiras! Não tinha muita sensibilidade para perceber o óbvio: era um mala!

Tinha um bom emprego e aproveitava da herança que os pais, que o tiveram em idade já avançada, haviam lhe deixado: um bom apartamento e uma ótima poupança na Caixa. Mas não conseguia aproveitar da companhia dos amigos. Por uma razão em especial: eles não existiam. Entretanto, ele sempre agia como se fossem, todos, íntimos. Tapinhas nas costas, ‘pescotapas’ (já quase tivemos uma briga quando ele veio com um desses pra cima de mim!), piadas sobre calvície com os carecas ‘O Aurélio é que nem piscina rasa: tem água, mas dá pra ver o fundo. Hahahaha!’. Como o Aurélio iria achar isso engraçado?! Ele, não hesitava e insistia: ‘Aurélio, daqui a pouco, se precisar. você pode pegar emprestado. É só jogar o cabelo de um lado pro outro. Ninguém nem vai reparar!’ Outra risada. Outra risada só dele.

Surpreendentemente, ele arrumou uma namorada. Até bonita. Até legal. Até uma santa. Ela era muito gentil, solícita e veio em boa hora: o fez sumir, pelo menos, umas três noites por semana, do bar. Era visível a diferença que a sua ausência causava quando ele não ia. E como as pessoas repetiam todas as suas piadas, recheadas de ironia e, muitas vezes, transbordando acidez. Quando passava uma sirene (pouco importava se fosse uma ambulância ou de um carro da polícia) e um já gritava, de um lado pro outro do bar: ‘Bê, abaixa aí: é a polícia!’ Todo mundo ria. Só o Onofre que não. Graças a Deus.

Ele, realmente, era muito chato. E inconveniente. Exultante por ter arrumado alguém que sorrisse depois de quatro minutos de papo – e muitos trocadilhos depois -, estava mais orgulhoso. E achava que aquele namoro comprovava sua tese de que ele era um eficiente galanteador. Seus recados em papéis rasgados, escritos com as canetas dos garçons nunca foram mais criativos do que: ‘Se você se machucou quando caiu do céu, deu sorte: eu sou médico. E, hoje, a consulta é grátis!’ Uma vez, viajava de férias – sozinho – e descobriu que havia um congresso de advogados no mesmo hotel em que estava hospedado. Esperou horas, sentado perto do barman, com uma frase infalível na cabeça: ‘Se o seu namorado faz direito, eu faço muito melhor!’ Usou essa várias vezes. Nenhuma deu certo. Será que ele não percebeu nada de errado com a estratégia?!

Mas a hora dele chegou. Quando o Juninho, um grande amigo nosso, anunciou que se casaria com a Adriana, o Onofre não resistiu: ‘Aê, Juninho, comeu a merenda antes do recreio, foi?! Hahaha!’. Mais uma vez, riu sozinho. O Juninho, um lorde, nem olhou pro idiota. Meses depois, o Onofre apareceu triste, cabisbaixo. Quase dava pena. Quase. Daria se ele não fosse o Onofre. Minutos – e nenhum trocadilho – depois, descobrimos a razão: Júlia, a Santa, o trcou por outro.

Alguns minutos depois, o Juninho chegou. Logo, soube da notícia, entre papos ao pé do ouvido cheios de piadas impiedosas. Não se agüentou e se levantou da mesa em que estava com a já esposa Adriana, e falou bem alto: ‘E aí, Onofre, que que houve?! Comeram a tua merenda?!’ O bar inteiro riu. Menos o Onofre. Foi o último trocadilho da vida do Onofre. Pelo menos, no nosso bar. Onofre nunca mais voltou. Penduramos um quadro do Juninho. Emoldurado. E com uma merenda.

Um comentário: